Escolha da carreira na Adolescência

Chegou a época de responder à velha questão da infância:

“O que você vai ser quando crescer?”

Agora é com você mesmo! Chegou a sua hora, pintou o problema. Epa! Problema, dilema ou solução? Jogando com estas palavras, estou fazendo uma brincadeira relacionada às situações ou momentos da escolha ocupacional. Vamos ver o que é isso e entender como ocorre o processo de escolha do papel que você, jovem, ocupará no “mundo dos adultos”.

A construção da identidade ocupacional é gradual.

Ela passa por quatro tipos de situações, que estão relacionadas principalmente ao grau de ansiedade presente em cada uma dessas situações ou fases. Não existe uma idade certa para a manifestação de cada uma dessas situações. Cada pessoa é única, tem um ritmo de amadurecimento próprio e isso deve ser respeitado.

A primeira situação é a predilemática. Palavrão, não é? Equivale a:

“Não tô ligado nisso…”

O adolescente ainda não se deu conta de que terá que tomar uma decisão quanto ao seu futuro profissional ou ocupacional. Ainda não se preocupa em explorar o mundo das profissões e carreiras existentes. Nem percebe, ainda, que deve fazer uma escolha. Como a questão da escolha por uma ocupação futura ainda não existe para este adolescente, sua ansiedade quanto a isto é baixa ou inexistente.

Quando o adolescente se apercebe de que “alguma coisa está acontecendo”, já está na situação dilemática.

“Ih!… acho que isso é comigo.”

Ele ou ela sente que existe algo importante e que alguma coisa precisa ser feita. A situação diante da escolha ainda é bastante confusa. Existe mistura entre profissão, matérias escolares e carreiras. Há também confusão entre o papel dos pais e dos professores. Quando existe alguma identificação, ela pode oscilar entre pais, professores ou outras figuras, como artistas, atletas e pessoas famosas. A ansiedade está relacionada à urgência da escolha e ao medo de não conseguir fazer nenhuma escolha. Tanto na situação dilemática, quanto na predilemática, a construção da identidade ocupacional ainda está bem crua.

A situação problemática inaugura o momento em que o adolescente parece realmente preocupado com a questão da escolha.

“Andar de skate ou ser engenheiro mecânico?”

Por estar lidando de forma mais objetiva com a construção da sua identidade ocupacional, a ansiedade é moderada. Começa a haver um entendimento sobre as inúmeras questões envolvidas com a escolha. A “ficha começa a cair”, mas ainda há muita confusão entre escolher o que gosta, o que agradaria os pais, o que “dá dinheiro” ou o que daria prazer ou fama. Não consegue conciliar variáveis como o gosto pela ocupação e a dificuldade com as disciplinas que precisará dominar. Reconhecer em si a necessidade de fazer uma escolha aciona o medo das perdas, pois sabe que terá que abandonar muitas coisas. O adolescente se pergunta: “vou conseguir viver sem isso?”.

Finalmente, o quarto tipo é a situação de resolução. O adolescente sabe que encontrará uma solução para o problema da escolha ocupacional.

“Eureka!”

Ele já resolveu outros problemas, já tomou outras decisões, já aprendeu a elaborar lutos pelas perdas que resultaram das suas escolhas anteriores. Munido de muita informação, de boas reflexões sobre si mesmo e com ajudas adequadas, será possível fazer a escolha. Contudo, adolescência é fase de crise, muitas mudanças estão acontecendo ao mesmo tempo. Mesmo estando na situação de resolução, podem acontecer comportamentos regressivos e próprios das fases anteriores. Nesses momentos, o jovem diz frases como: “não quero mais saber disso” – “não me fale mais desse assunto” – “eu jogo a toalha, me diz aí o que eu tenho que fazer”.

E aí?

Se você que está lendo este artigo é adolescente, você está se vendo em alguma dessas situações? Identificou em qual delas você está neste momento? Se você é pai, se é professor, ou se acompanha o desenvolvimento de jovens, está conseguindo identificar em qual situação seu ou sua adolescente está?

A construção da identidade ocupacional pode gerar sentimentos de solidão, mal-estar, desconforto e confusão. Tudo isso pode acontecer, são fenômenos bem conhecidos por nós profissionais. Existe pressão para a tomada de decisão “no tempo certo”, este entendido como início da faculdade no janeiro seguinte ao da conclusão do ensino médio. Isso pode ser sentido pelo jovem como um peso. Nestas circunstâncias, o risco de fazer escolhas erradas é grande: escolhas por idealização, por reparação ou escolhas aleatórias. Em outros artigos explico o que é isso.

Tem como evitar as decisões precipitadas, aquelas que trazem inconveniências, perdas de tempo, de expectativas e de dinheiro.

“Blá, blá, blá…”

É importante o diálogo entre pais e filhos e a busca conjunta de informações sobre profissões e carreiras. Atualmente são muitas as profissões e é natural que o adolescente se sinta perdido diante de tantas opções. Um jovem adequadamente estimulado pode trilhar os meandros da escolha com mais facilidade. Isso ajuda, mas pode ser insuficiente, pois a escolha mais acertada acontece no indivíduo com maior grau de autoconhecimento. Considere a possibilidade de contar com a ajuda de psicólogos especializados e serviços de orientação profissional ocupacional para fazer o seu projeto de vida e de carreira.

Boa escolha!

José Hamilton Ferreira
Psicólogo CRP SP 36505