Amor de Mãe e Amor de Pai
Um ninho de amor

Existe uma forma superior de amor aos filhos? Quem ama mais, a mãe ou o pai? Quais destes amores é mais importante para o desenvolvimento da criança?

Essas perguntas estão presentes em nossas conversas, fazem parte das nossas indagações. Em diferentes épocas da história, ou em culturas diferentes, uma destas formas de amor pode ser “a preferida” na opinião vigente.

Começo do jogo, 1 a 1

A vida começa com a união do espermatozoide ao óvulo. A contribuição do pai e da mãe são equivalentes. Sem uma das partes não se forma vida. O placar inicial começa com um empate de um a um.

Ponto para a mulher, 2 a 1

O privilégio da gestação, a oportunidade de doar partes e substâncias do seu corpo ao feto, de compartilhar sua biologia, de estar em contato ininterrupto, de compartilhar biologia e sentimentos com o filho é incomparável.

A forma de amor inicial da mãe com o feto confunde-se com o amor por si mesma. Ela sabe que abriga outro ser no seu ventre, mas a união deste ser consigo mesma é total. Ele está dentro dela, alimenta-se dela, ele sente a sua pulsação; ela, os seus movimentos. Os dois seres estão interligados. Tudo isso cria uma forma de amor intensa. Mãe e feto formam um conjunto, é uma coisa só, uma simbiose.

Nesta etapa, o pai tem a oportunidade de estar por perto. Alguns fogem da responsabilidade. O pai próximo, no máximo faz isso: chega perto, põe a mão na barriga da mulher, vê o ultrassom, fala com o feto, esforça-se, cria um vínculo, mas o “gol” é da mãe.

Para amar é preciso conhecer

Santo Tomás de Aquino diz que amamos o que conhecemos. Na fase da gestação e no começo da vida a mãe conhece mais. Logo, tem condições de amar mais.

Por estes e outros fatores, como amamentação, cuidados e companhia, a mãe desenvolve um tipo de amor incondicional. Mãe ama, independentemente da resposta do filho. É a sua cria, uma espécie de extensão de si mesma.

É um amor lindo, esse amor de mãe.

Amor de mãe pode “estragar” o filho?

Não, nunca! O amor somente soma, contribui, conforta. Podemos dizer, brincando: “o amor de mãe engorda e faz crescer”.

Quando algo na relação mãe-filho produz resultados ruins, não é culpa do amor. O que “estraga” são as patologias, as carências, os exageros e os medos; nunca o amor.

O que é amor mesmo?

Amor é uma das onze paixões humanas, ou seja, uma das emoções. Define-se amor como a posse afetiva de um bem. É natural que queiramos preservar o bem, cuidar dele e agradar. Se o bem é uma pessoa, queremos fazê-la feliz.

A mãe vira o jogo porque ela já tem a posse material do feto de uma forma mais contundente, muito mais clara, mais próxima. O amor do pai não tem como ser tão grandioso nesta etapa, ele vai chegando aos poucos.

Amor, se é amor, é sempre o mesmo. A forma de expressão sim, pode diferenciar. Neste sentido, há diferenças. O pai expressa o amor de uma outra forma.

Vamos agora dar o empate. Está 2 a 2. Ambas as fontes do amor: mãe e pai, são fundamentais para a formação do ser humano. Ambos podem amar com o mesmo amor, embora com formas distintas de expressão. Tirada a ansiedade do jogo, falarei como é o amor de paterno.

Amor de pai

O pai expressa o seu amor de um modo mais “condicional”. Ele espera algo em troca nesta relação de amor. Ele deseja desempenhar um papel na formação do caráter do filho ou filha, quer deixar sua marca.

A mãe também desempenha um papel fundamental na formação total dos filhos. Ela estrutura uma base, satisfazendo as necessidades de carinho e cuidados no primeiro período da vida.

Quais são as condições para o amor paterno? Ele deseja que o seu amor seja merecido. Por ser mais guiado pelas potências racionais do que pela dimensão emocional, através do seu amor, o pai não deseja apenas que o filho se sinta bem, mas que ela vá bem em tudo, que dê certo para si e para a sociedade.

Amores complementares

Ambas as formas de amor são importantes para o desenvolvimento da criança. São formas complementares de amor. A criança não precisa apenas de nutrição para o seu corpo, mas também para sua alma.

Ambos os pais contribuem com tudo, mas há nuances na expressão desse amor. Por ser totalmente incondicional, por não exigir absolutamente nada em troca, diz-se que a mulher ama mais. Aristóteles dizia que “as mães, que são as que mais amam, buscam mais amar que ser amadas”.

As condições do amor paterno estão relacionadas à prudência. Enquanto a mãe ama simplesmente para criar o filho para a vida, o pai deseja desenvolvê-los para as virtudes.

Claro que ambos almejam a vida confortável e as virtudes dos filhos e que os papéis não são tão rígidos, atualmente. Contudo, a tendência é que o pai seja mais incisivo e que a mãe seja mais acolhedora.

Menos, menos…

Esses papéis são também simbólicos, não são tão literais e não devem ser levados “ao pé da letra”. Estou me referindo a modelos que em algum nível estão internalizados em nossa psique e em nossa cultura.

O comportamento e a interação dos pais e das mães, em nossos dias, são intercambiáveis. Estamos vendo experiências com vários modelos de família. Não é fácil fazer inferências ou tirar conclusões de fenômenos sociais que estamos vivendo. Corremos o risco de errar.

Nossos cérebros e a nossa psique são estruturas e sistemas antiquíssimos e não se alteram na mesma velocidade com a qual alteramos nossos hábitos e costumes. Podemos mudar nossos estilos de vida e convivência, contudo é necessário conhecermos nossas necessidades profundas, sob o risco de não as atendermos e gerarmos conflitos existenciais em nós ou em nossos filhos.

José Hamilton Ferreira

Psicólogo José Ferreira – CRP-SP 36.505